sexta-feira, 30 de maio de 2014

ACOPIARA: CRISARES... O PADRE DOS AÇUDES

Materia feita pelo jornal O POVO em 2008: O padre que constrói açudes.

No semi-árido cearense, um padre cava açudes para não desperdiçar os invernos bons e garantir a convivência nos tempos de vacas magras. A passagem por Acopiara estava na rota das caçadas de chuvas, mas por causa das enchentes em Crateús, Novo Oriente e em Quiterianópolis tivemos de desviar o caminho e faltou pouco para riscá-la do roteiro. Ainda bem que não o fizemos. Lá, depois de chegarmos por volta das três da tarde de uma sexta-feira, descobrimos a saga do padre Crisares Sampaio Couto, 79, e seu povo no semi-árido cearense. Começa assim essa história: "Deu tempo aproveitar as águas dos temporais de 2008" e quase encher o açude recém-nascido. Rebento robusto, com capacidade para 4 milhões de m³ d´água. Nos três primeiros meses deste ano, o povo da região do Ebron testemunhou a conclusão da parede e sangradouro do açude dos Oitis. Nada de milagre ou retribuição a sacrifícios devotados a um bezerro de ouro. Em pleno semi-árido cearense, num distrito esquecido - situado há 44 quilômetros da sede de Acopiara -, um padre e 130 famílias subverteram a escrita da vida como ela é no sertão.

Famílias do desterrado Ebron propuseram ao padre Crisares mais uma caminhada em seus 47 anos como pároco de Acopiara. O vigário é um senhor longilínio, de aparência incansável (a exemplo de um Moisés), determinado e de uma doçura de avô. Mas tem uma coisa e prega: não lida "com gente desorganizada e não sou paternalista ou assistencialista. O trabalho social da paróquia é promocionalista e libertador. Promovemos a vida em abundância pra quem a deseja e tem coragem".

Firmou isso para contar um pouco das quase cinco décadas de convivência numa das dioceses mais pobres do semi-árido cearense. Voltemos ao ano de 2003 para caminhar até 2008. Há cinco anos, famílias do povoado da região do Ebron foram ter com padre Crisares. Esquadrinharam o povoado e ratificaram a "existência" de uma terra que tinha tudo para ser próspera. Desde que o sertão é sertão e o primeiro morador sentou praça por lá, o Ebron é cortado pelo riacho dos Oitis. Abundante em períodos de chuva. "Uma riqueza desperdiçada, principalmente em tempos de inverno bom. Muita água e gente morrendo de fome". Desejavam, conta padre Crisares, a construção de um açude e em seus arredores cultivar favorecidos por um projeto de irrigação.

Forjado em Comunidades Eclesiais de Base (Cebs), braço ainda forte na paróquia de Acopiara, padre Crisares orientou a criação de uma associação comunitária no Ebron e a formulação de um projeto. "Ensino a pescar, não dou o peixe". E assim o fez. 

Estudo na mão, bateram à porta de uma velha parceira: a ONG Manos Unidas. Uma organização da igreja católica na Espanha que destina, a fundo perdido, recursos para geração de emprego e renda a povos organizados do 3º Mundo.

Da Espanha vieram euros, que convertidos em moeda brasileira, somaram um pouco mais de R$ 1 milhão. O dinheiro, que não caiu do céu e nem passou pelas mãos de políticos brasileiros, operou a primeira parte da transfiguração no Ebron. O que era necessidade virou realidade e, nos três primeiros meses deste ano, a comunidade viu se fazer verdade o nascimento do açude dos Oitis.

O Oitis não foi o primeiro açude que o padre Crisares "construiu" com o povo no semi-árido cearense. Em 2003, a comunidade da Extrema, depois de percorrer um caminho semelhante ao dos habitantes do Ebron, inaugurou o açude da Extrema. Lá a capacidade é de 3 milhões e 500 mil m³ d´água e, hoje, já produz dignidade.

Demitri Túlio e Cláudio Ribeiro - Textos
Enviados ao Centro-Sul - 03 Maio de 2008 - Acopiara, município da região Centro-Sul do Ceará.